• Cláudia Soares

Velhices e envelhecimento

Atualizado: 19 de Fev de 2020

“Ocupar-se consigo não é pois, uma simples preparação momentânea para a vida; é uma forma de vida

Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 446


Memorial produzido pela pesquisadora

Esta pesquisa partiu de questionamentos em torno do cuidado com a vida na atualidade, onde a formação técnica prevalece com ênfase nas disciplinas, nas especialidades e na tecnologia, resultando numa medicina que controla e exige autocontrole do corpo a partir de um cuidado prescritivo, pois o que interessa é agir de modo integrado e protocolado em termos multiprofissionais sobre os processos desejantes vinculados à produção dos modos de existências, pautados pelo olhar do risco de adoecer e morrer. Nesse sentido, falar do cuidado na atualidade é falar do cuidado da saúde com enfoque no corpo biológico.


Buscamos nesta pesquisa trilhar outro percurso a partir do encontro da filosofia com a arte elaborando um pensamento em torno do cuidado que nos prepare para este mundo e libere as potências da VIDA. E para tanto, fomos inicialmente ao encontro do conceito de "cuidado de si" trabalhado pelos estoicos, mas não com a intenção de repetir modelos, pois sabemos que isso não é potente, mas com a intenção de mostrar que outras formas de cuidado são possíveis.


Entendemos que o "cuidado de si" gera uma ação medida, regulada, em vista do que convém e não convém, no próprio campo dos encontros, o que vai exigir que pensemos com o máximo de precisão possível o lugar que ocupamos neste mundo. Portanto, o "cuidado de si" é primeiramente uma atitude, uma forma de estar no mundo. Em seguida, é uma forma de agir, de ter relações com os outros e de encarar as coisas. Posteriormente isso se reflete diretamente em uma atenção, um olhar; uma preocupação com o que se pensa e se sente; e igualmente em uma ação, sobre o próprio sujeito. Assim, "cuidar de si" é buscar práticas que promovam a própria transfiguração e transformação, no próprio campo da imanência.


A pesquisa se deu a partir do convívio junto ao grupo Teia de Aranha formado por mulheres bordadeiras de diferentes idades e buscamos mostrar que o não-reconhecimento da realidade abre a brecha para o real, para o encontro com o imprevisível e para as potências da vida. A partir da convivência com essas bordadeiras, mostramos o exercício daquilo que buscamos constituir: a produção de um cuidado que se exerce no cotidiano mais simples e necessário e que pode desencarcerar e potencializar a vida. Com este enfoque abordamos a leitura e o bordado como possibilidades de fugir da normalização do modo de existência na velhice. Literatura, poesia e bordado enquanto lugares do cuidado inserido num tempo-espaço povoado de intensidades.


Mostramos que o corpo-fazedor dessas bordadeiras que envelhecem entre amigas está em constante processo de contaminação e transformação e que a aposta nas trocas, nas forças do agir e do pensar irão implicar em um “cuidado de si”.






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